Sempre gostei de escutar Emicida. Eu tenho uma relação muito intima com a música então, meus gostos são bem variados. No meu repertório você pode encontrar de tudo e lá tem desde Chico Buarque até Sabotage.

Descobri o novo Álbum dele: AmarElo, no ano passado, 2019, assim que foi lançado. E já me apaixonei não só pela capa impactante, como também pelo trocadilho do nome atribuído gentilmente ao CD. 

AmarElo para mim é muito mais que um álbum de música, é um compilado de poesia, história e vida real. Do jeitinho que eu gosto, com diversas misturas, interpretações e referências, que só uma letra bem pensada pode trazer. 

Acredito que compositores e produtores deste tipo, são raros hoje em dia e o Emicida conseguiu fazer essa mágica com TODAS as letras deste CD incrível e é justamente sobre isso: a composição e construção deste álbum, que eu gostaria de falar neste artigo.

Para quem não sabe ou não conhece o Emicida, vou deixar o aqui o Link de sua biografia oficial.

Sobre o álbum em si

Foto Divulgação – Site Bocada Forte

Para mim este álbum é tão rico quanto incrível. Rico porque está cheio de vozes diferentes e ótimas referências. Dá pra sentir em cada música, a grandeza do repertório usado para compor cada frase. Se você possui boas referências sobre a negritude do Brasil vai sacar de cara o que cada faixa pode te dizer e quais as críticas que elas englobam.

Cheio de participações especiais, para mim, este CD é como se fosse um espelho do Brasil, onde você encontra de tudo e todos em um só lugar.  Para mim, Emicida sempre mandou muito bem nas letras, mas desta vez ele se superou e conseguiu captar algo que vai além do som: sentimentos.

Esta é a minha breve visão sobre este álbum de um modo geral, porém, aqui quero falar da minha interpretação sobre algumas músicas em particular. Minha vontade era falar de quase todas as faixas que achei incrível, mas vou me atentar somente à algumas e tentar ser breve ao falar de cada, mas por favor, tente acompanhar até o fim para entender o quanto eu amei este trabalho e super indico! Confira:

Principia

Esta música é uma mescla de vozes e que traz uma citação de poesia maravilhosa. Mostra como duas coisas distintas podem andar juntas numa mesma direção. Ela é gravada com parceria de praticantes de Umbanda e na voz de pessoas da religião Evangélica, que juntos se misturaram para trazer para a gente esse som. 

A música fala exatamente disso, da nossa igualdade como ser humano. Independente de crença, raça, gênero, cor, etc. Mostra que no fim de tudo, o que sobra mesmo, o que importa, é o que temos: nós mesmos.

Nós mesmos e aqueles que estão a nossa volta, que nos faz sentir plenos apesar das lutas diárias, nós como simplesmente seres vivos.  

Achei incrível que o nome da primeira música deste CD seja justamente Principia, como se já anunciasse o princípio de tudo, o começo da narrativa e ditasse como seria o caminho do ouvinte por todo o trabalho, e principalmente, como ela está intimamente ligada a penúltima música que é o single principal: AmarElo. Criando assim, um verdadeiro elo entre o começo e o fim, dando a simbologia que tudo está intimamente ligado ao amor. Puro e simples como ele é. 

Outra coisa interessante e que o título da 4 faixa do álbum Quem tem um amigo tem tudo, também está relacionada, não só pelo sentido das palavras, mas porque carrega consigo no título o refrão deste single entre parênteses: Quem tem um amigo tem tudo (tem tudo). 

Estes detalhes para mim é o que que fazem toda a diferença, e é a grande sacada do álbum. E vamos combinar? Mais genial que isso, impossível.  

A ordem natural das coisas

O single A ordem natural das coisas, me traz uma sensação de imensa empatia e paz que é impossível descrever, porque ao ouvi-la, eu consegui me identificar e identificar a vida das pessoas que conviveram comigo. 

Eu nasci em São Paulo, e apesar de ter vivido boa parte da minha vida no interior, meus parentes em sua maioria sempre foram da capital e eu tinha o costume de visitá-los durante as férias escolares.

Essa música fala da vida que começa antes do sol nascer e é impossível, para mim, ouvir e não lembrar das minhas tias que acordavam as 4h da manhã para pegar no batente às 08h, que começavam a viver suas vidas no escuro da madruga da grande SP, quando o sol ainda nem nasceu.

Essa música, trás o pensamento que apesar do sol ser o astro rei do universo e a vida só ser gerada porque ele existe, a ordem natural das coisas é quando estas pessoas, muitas vezes invisíveis para a sociedade, saem para trabalhar antes da luz aparecer. Por isso o refrão é justamente esse:  “O sol, só vem depois… É o astro rei, ok. Mas vem depois…”

Eu poderia fazer um copilado da letra inteira para trazer a você o trecho que achei mais bonito e eu acho que é mais fácil você conferir este som por você mesmo(a). Vai por mim, é linda demais a riqueza de cada verso quando você entende o seu contexto.

Pequenas alegrias da vida adulta

Se você já é adulto ou já é independente, talvez vai saber reconhecer as sensações destas situações a seguir: sabe quando a gente precisa sair para trabalhar, o dia tá chuvoso e de repente ao sair de casa a chuva para? Sabe quando você recebe o salário? Sabe quando você consegue comprar aquela panela antiaderente que tanto sonhou? Sabe quando você tá no trabalho e de repente, acontece uma coisa engraçada que te faz rir durante o dia? Pois é…

Quando a gente vive, existem certas alegrias que só quem já viveu a vida adulta vai entender. Esta música fala justamente sobre isso: das pequenas alegrias que andam por aí escondidas na vida. 

O som é tão divertido quanto a letra, e fala justamente destas alegrias, que nós podemos tirar forças para ganhar a maratona e chegar primeiro a onde a gente quer chegar. É sobre viver a vida, mas ao mesmo tempo, saber aproveitá-la nas pequenas coisas. A narração final do som resume muito bem tudo isso.  

Cananéia, Iguapé e Ilha Comprida

Acho que a maioria das pessoas conhecem o Emicida das rinhas, mas, como seria o Emicida como pai? Como é a visão de quem vê as coisas boas da vida e não só os temas polêmicos envolvendo a sociedade? Será que para ser rapper, você precisa ser agressivo o tempo todo?

Estes são questionamentos que o próprio Emicida traz nesta música, é a música dele como sendo um pai, um cara normal, não só o cara das rinhas. E já na intro, onde ele traz essas referências intercalando com o riso de sua filha mais nova, já se entrega tudo. A letra é maravilhosa, e assim como o som,  A ordem natural das coisas, não sei o que falar, apenas sentir. 

Por isso ouça e veja por si, o quão incrível esta narrativa é.

Ismália

Pra quem não sabe, Ismália na verdade é um poema de Alphonsus Guimarães, poeta muito bem conhecido e que teve seu auge na língua portuguesa em 1870. O poema expressa a dualidade entre o corpo e a alma, a loucura como efeito da angustia para romper a distância entre o celestial, o terreno e a desilusão, como se o belo e o perfeito tivessem sido subtraídos da condição humana. 

Em sua letra, Emicida consegue muito bem fazer um paralelo entre este poema e a condição da negritude no Brasil (talvez até no mundo), intercalando sua rima com informações de casos ocorridos na atualidade. 

Com participação de ninguém, mais e ninguém menos que Fernanda Montenegro, este single é um dos meus favoritos e expressa muito bem a luta do povo negro no Brasil para se manter de pé diante da desigualdade imposta pela sociedade. 

Acho essa música incrível não só pelo paralelo criado, como também pelas frases muito bem construídas que representam em si, o sofrimento negro. Eu achei maravilhosa e muito bem elaborada. Com certeza é uma das minhas faixas favoritas do álbum.

Libre

E por último, que por coincidência também é a última faixa do CD, está Libre. Um som dançante criado com parceria das lindas Ibeyi e totalmente alegre, mas que também carrega uma crítica muito boa sobre a liberdade negra, seja ela de expressão, cultural ou como seres vivos. 

Amo essa música não só pela batida, mas principalmente pela pegada da letra que é como se fosse o vislumbre do sonho negro, mostrando que eles são eles e eles são foda mesmo como são e quando o povo negro se junta e vai a luta pelo que quer, não tem pra ninguém. Eu achei maravilhoso porque também vai de encontro, de uma certa maneira, com a primeira faixa do álbum.

Eu poderia citar aqui o álbum inteiro e falar música por música, mas assim o artigo iria ficar extenso demais e é legal você experimentar ouvir cada letra por si mesmo(a). 

Ainda poderiam entrar aqui nesta minha lista de faixas favoritas: AmarElo, Eminência Parda, 9nha, enfim… Vale a pena conferir e escutar. 

Para saber um pouco mais sobre o álbum e ter a visão do próprio compositor, também recomendo escutar o episódio do Podcast Mamilos “Emicida em Amarelo” onde ele conta em entrevista suas inspirações para cada música e como o álbum foi produzido. Acho uma boa para complementar este assunto caso você tenha ficado interessado(a).

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  • UPDATE: Recomendo ainda o documentário estreado recentemente na NETFLIX (01/2021) sobre a construção deste CD e sobre o show realizado no Teatro Municipal sobre o mesmo. Uma verdadeira aula de história necessária. Vale muito a pena conferir.
Foto Divulgação – Revista Galileu

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Mas agora me conta…O que você achou deste artigo? Já tinha ouvido este álbum ou alguma destas músicas? Se sim, quis fora as suas favoritas? Ao ouvir você chegou nas mesmas referências que eu, ou encontrou outras diferentes? Comente! – Um beijo e até a próxima! 😉

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